Hipertexto Cooperativo: Uma Análise da Escrita Coletiva a partir dos Blogs e da Wikipédia - Raquel Recuero

http://www.ufrgs.br/limc 1/13 Hipertexto Cooperativo: Uma Análise da Escrita Coletiva a partir dos Blogs e da Wikipédia1 Alex Fernando Teixeira Primo 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Raquel da Cunha Recuero3 Universidade Católica de Pelotas Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. Resumo: O artigo tem o objetivo de analisar e discutir as características da escrita coletiva, segundo o conceito de hipertexto cooperativo. A partir disso, discute-se como os blogs e a wikipédia (uma enciclopédia digital construída online) viabilizam a concretização de uma uma "web viva", ou seja, redigida e interligada pelos próprios internautas. Palavras-Chaves: escrita coletiva – hipertexto cooperativo – blogs – wikipédia Ao fazer citações deste artigo, utilize esta referência bibliográfica: PRIMO, Alex Fernando Teixeira; RECUERO, Raquel da Cunha. Hipertexto Cooperativo: Uma Análise da Escrita Coletiva a partir dos Blogs e da Wikipédia. Revista da FAMECOS, n. 23, p. 54-63, Dez. 2003 2003. Introdução O termo “hipertexto” foi cunhado ainda na década de 60 por Theodor Nelson. Contudo, esse visionário pesquisador ainda hoje insiste em criticar duramente a Web, enquanto estrutura hipertextual. Para ele 4 , “The Web isn't hypertext, it's DECORATED DIRECTORIES! 5 ”. Ou seja, a estrutura informática de arquivos e 1 Trabalho apresentado no “VII Seminário Internacional da Comunicação - Da Aldeia Global ao Ciberespaço: As Tecnologias do Imaginário como Extensão do Homem", na PUC/RS, em 25 de agosto de 2003, no GT “Tecnologia do Imaginário e Cibercultura”. 2 Professor de Comunicação (Fabico/PPGCOM//UFRGS), doutor em Informática na Educação (PGIE/UFRGS), mestre em Jornalismo pela Ball State University; coordenador do Laboratório de Interação Mediada por Computador (PPGCOM/UFRGS). 3 Doutoranda em Comunicação e Informação (PPGCOM/UFRGS) e professora da ECOS/UCPEL. 4 http://ted.hyperland.com/buyin.txt 5 Tradução dos autores: A Web não é hipertexto, são DIRETÓRIOS DECORADOS! http://www.ufrgs.br/limc 2/13 diretórios hierárquicos oporia-se ao conceito original de seu projeto Xanadu6 . Nesse sentido, a Web se estruturaria segundo as determinações dos programadores, impedindo um processo de interconexão de textos mais aberto aos autores e leitores. Na Web, inclusive, existem mecanismos que servem de guias de navegação. Muitos desses roteiros são traçados por grandes conglomerados, que, em certo sentido, aproximam-se do modelo massivo de delimitação do conteúdo disponível. Essa é a crítica feita por Lemos (http://www.facom.ufba.br/ciberpesquisa/andrelemos/portais.html) aos chamados “portais”. Conforme aponta, a palavra portal carrega consigo uma conotação mística de abertura – “como porta de passagem, como canal que nos abriria à outros mundos, à novos universos possíveis e impossíveis” – mas acaba promovendo um fechamento ao mesmo. Lemos então sentencia: “Portais-currais configuram-se como estrutura de informação (conteúdo) que nos tratam como bois digitais forçados a passar por suas cercas para serem aprisionados em seus calabouços interativos”. Ou seja, os portais seriam vias definidas de forma hegemônica, que conduzem o internauta pelas páginas patrocinadas da empresa, com a pretensa intenção de poupar as pessoas de se “perderem” na rede. A rigor, a Web traz consigo uma nova possibilidade de acesso, permitindo aos internautas “navegarem” por entre as alternativas disponibilizadas. É justamente neste sentido que boa parte dos estudos sobre hipertexto costumam atribuir co-autoria a qualquer internauta que ao chegar em uma página com diversos links e trajetos potenciais escolhe seu próprio percurso de navegação (Landow, 1997). Não se pretende negar que a navegação em um hipertexto demanda a ativa escolha do interagente dos caminhos que quer seguir e que qualquer leitura subentende uma recriação particular do texto, a partir da historicidade singular de cada um. Porém, o que mais importa a este artigo não é a “escrita” do percurso próprio em uma rede hipertextual pré-disposta, mas as modalidades de produção textual coletiva mediadas pelo computador. Ou seja, a possibilidade de intervir no conteúdo, de sugerir novos links e abrir novos caminhos ainda não disponíveis no site. Ou seja, quer-se tratar de autoria não apenas no que toca a leitura ou escolha entre alternativas pré- configuradas, mas fundamentalmente no que se refere à própria redação hipertextual. Para tanto, parte-se da tipologia de hipertextos (desenvolvida por Primo, 2002) que toma como base a interação entre os interagentes. No hipertexto potencial os caminhos e movimentos possíveis do internauta encontram previstos. Assim, apenas o interauta se modifica, permanecendo o hipertexto com sua redação original. No hipertexto cooperativo todos os envolvidos compartilham a invenção do texto comum, à medida que exercem e recebem impacto do grupo, do relacionamento que constróem e do próprio produto criativo em andamento. Já o hipertexto colagem constitui uma atividade de escrita coletiva, mas demanda mais um trabalho de administração e reunião das partes criadas em separado do que um processo de debate e invenção cooperada (nesses casos, uma pessoa ou uma pequena equipe de editores pode decidir o que publicar e trabalhar na organização e gerenciamento das contribuições). 6 Segundo Luke Francl (2002), Xanadu é o mais duradouro vaporware da história da informática (http://www.infoanarchy.org/comments/2002/7/3/65521/11474/0/post) – que em termos informáticos quer dizer um boato sobre o lançamento de um programa, que jamais acontece. http://www.ufrgs.br/limc 3/13 O hipertexto cooperativo, que interessa particularmente a este trabalho, será abordado a partir de duas tecnologias que recentemente tem atraído grupos de interagentes para a construção coletiva de hipertextos: os blogs e o sistema Wiki. Como se poderá observar, o processo cooperado se ergue em torno da geração de um produto textual comum, que se organiza a partir de deliberações do grupo. Porém, enquanto um blog pode ter um “proprietário” e a participação de outros interagentes se dá em um espaço secundário, em sistemas Wiki – como na Wikipédia (enciclopédia online cooperativa a ser discutida no item 2) – todos os colaboradores tem direito de escrever e reescrever qualquer texto. Apesar dessa distinção, em qualquer um dos casos o diálogo e o debate reúnem o grupo em torno de discussões e, no decorrer do processo, podem vir a fomentar um sentimento comunitário compartilhado. Finalmente, quer-se apontar que a possibilidade de livre participação na redação cooperada de hipertextos se insere no encaminhamento de uma construção social do conhecimento. 1. Blogs e a Escrita Coletiva Os weblogs, ou simplesmente, blogs, são sistemas de publicação na Web, baseados nos princípios de microconteúdo e atualização freqüente7 . O sistema vem ganhando crescente popularidade8 , graças à facilidade de publicação, uma vez que proporciona que qualquer um, mesmo sem conhecer a linguagem HTML, possa publicar seu blog. Os textos são publicados em blocos9 organizados cronologicamente (pela data de publicação). Esses blocos de texto costumam utilizar muitos links para fontes e contraposições de fontes (Blood, 2003, p.10-13), constituindo-se também em uma característica desses blogs. Os primeiros weblogs eram baseados principalmente em links e dicas de websites pouco conhecidos, bem como comentários, ou seja, funcionando, também, como uma publicação eletrônica. Os weblogs, portanto, não foram criados com o fim exclusivo de servirem como “diários eletrônicos”, mas simplesmente como formas de expressão individual. A maioria dos sistemas de blogs conta hoje com duas ferramentas muito populares: A primeira delas é a ferramenta de comentários, que permite que os internautas possam deixar observações e comentários sobre os posts publicados pelo autor do blog. A segunda é a ferramenta trackback, que permite que outros posts, em outros blogs, que fizeram referência a um texto sejam linkados junto dele, de modo a 7 Recuero, R. 2002. Weblogs, Webrings e Comunidades Virtuais. Artigo apresentado no VI Seminário Internacional de Comunicação. Disponível em - http://www.pontomidia.com.br/raquel/webrings.pdf 8 Blogs são, hoje, um dos sistemas mais populares de publicação na Web. Recentemente, o Blogger.com, um dos sistemas mais conhecidos de blogs, anunciou ter chegado à marca de um milhão de blogs registrados (http://www.blogger.com/news_archive.pyra?which=2003_01_01_news_archive.xml#90149069). O sistema, de propriedade da Pyra Labs, de São Francisco, Califórnia, começou a funcionar em agosto de 1999. Em que pese o fato da Internet ser uma ferramenta elitista, um milhão de blogs é uma marca impressionante para menos de quatro anos de funcionamento. Os usos dos weblogs são os mais variados: Alguns utilizam como diários pessoais, outros como revista eletrônica, outros ainda como espaço para escrever ficção, etc. 9 Os chamados “posts”. http://www.ufrgs.br/limc 4/13 mostrar ao internauta a discussão que está sendo realizada em torno do assunto também por outros blogs. São exatamente essas ferramentas que fazem do blog um sistema que traz uma organização diferenciada para a Web. Isso porque são essas ferramentas que proporcionam ao weblog um espaço de comunicação entre os interagentes, proporcionando a discussão e o diálogo. Dentro de uma caixa de comentários, oferece-se um espaço de fórum, onde os internautas podem deixar seus comentários e, posteriormente, retornar para ver as contribuições de outras pessoas. Em uma caixa de trackbacks é possível ler a repercursão de uma determinada discussão em outros blogs, aumentando e complexificando a rede hipertextual que um blog pode proporcionar. “Weblogs (and the community that has formed around them) run on links10 ” (Blood, 2002b, p.11). No weblog Daily Kos11 , por exemplo, a caixa de trackback explicita: “Continuing the discussion” (continuando a discussão), e logo após, publica links para outros blogs que discutem os assuntos de cada post e coloca junto um pedaço do texto de cada trackback. Percebe-se, portanto, que o internauta tem uma posição realmente ativa, participando da criação da rede hipertextual, através da interação mútua (Primo, 1998) proporcionada por esses espaços, onde as pessoas conseguem estabelecer relações e laços sociais. O Walter voltou! O Walter voltou! O quê? Você não conhece o Walter??? Porra, leia os comentários de alguns dos últimos posts. O Walter é o meu oponente predileto: Critica com base, é impiedoso, nada resiste à sua ironia. (...) Transcrevo abaixo o comentário dele explicando o que aconteceu com este blog recentemente. É tudo verdade!!! 12 O post acima está em no blog “Jesus, me chicoteia!”. Nele, o autor reproduz um comentário de alguém e revela o quanto lhe impressiona aquilo que o “comentarista” escreve, demonstrando o quanto a interação dentro dos comentários supera essas fronteiras, criando redes de comentaristas e blogueiros, que escrevem e lêem-se mutuamente, “conversando” através desses sistemas. No exemplo, o blogueiro saúda a discussão, o discordar fundamentado e inteligente de um internauta, que passa, a rigor, a ser co-autor do texto. Em um blog, portanto, é possível ao internauta concordar ou discordar dos posts, expor seu posicionamento e criar novos nós para a rede hipertextual, seja através de um comentário, seja através de um link para seu próprio blog, criando espaços de negociação – embora estes espaços (janelas de comentários) destinados ao debate sejam menos visíveis, laterais ao grande espaço dos textos do blogueiro. Mais do que seguir links e trilhas pré-estabelecidos nos websites, o blog permite ao blogueiro e aos internautas criar novas trilhas, criar novos nós e links. A ação do internauta aqui, portanto, não se restringe a percorrer trilhas entre os links na Web, a simplesmente navegar. Ela é construída de forma conjunta, modificando a estrutura da própria Web. Trata-se de uma ação coletiva e construída de complexificação e transformação da rede hipertextual pela ação de blogueiros e leitores, que terminam por participar também como autores. Em um artigo recente (Recuero, 2002, online), defende-se que os espaços de interação mútua em um blog auxiliam na criação de webrings, ou seja, círculos de 10 Tradução dos autores: Os Weblogs (e a comunidade que se forma em torno deles) funcionam através de links. 11 http://www.dailykos.com/ 12 http://www.jesusmechicoteia.com.br/archives/2003_06.html#002864 http://www.ufrgs.br/limc 5/13 blogueiros que interagem através de comentários e trackbacks, construindo uma rede hipertextual dialógica e complexa. Esses webrings podem dar origem à criação de comunidades virtuais13 , pois representam, mais do que um grupo de links, um grupo de pessoas que estabelecem relações entre si. Quentin Jones (1997, online), em sua proposição sobre o virtual settlement esclarece a importância dessa diferenciação. Ele vê dois usos mais comuns do termo “comunidade virtual”. O primeiro referente ao suporte da comunidade, ou seja, aos softwares utilizados pelas classes de grupos (chats, e-mails, etc.) e um segundo, que refere-se às novas formas de comunidade, criadas através do uso desse suporte. Ele chama a primeira definição de “virtual settlement” (estabelecimento virtual) e a segunda como verdadeira “comunidade virtual”. Para Jones, portanto, a comunidade é diferente do seu suporte. Para ele, portanto a noção de comunidade supera o seu estabelecimento tecnológico, abarcando as pessoas e suas relações como centro principal. Os blogs demonstram isso na medida em que proporcionam uma comunidade virtual de blogueiros, cujo virtual settlement não é imediatamente identificado: Trata-se de um virtual settlement muitas vezes pulverizado em diversas caixas de comentários e posts, outras vezes expressos em uma lista de links no próprio blog. Como se vê, os blogs trabalham com uma alteração no fluxo de conteúdo e de crescimento hipertextual da Web. Trata-se de um movimento de largas proporções. Como conseqüência, têm afetado os mecanismos de busca na WWW, que não foram programados para lidar com sites tão dinâmicos e com tantas discussões. A cada busca, os search engines acabam encontrando milhares de blogs e, muitas vezes, não a informação que se busca. Um artigo da Wired14 explicou o problema: Bloggers attribute prominent placement to the frequency with which they publish new material and the fact that other sites often link to their blogs. These are two factors most search engines take into account when determining rankings. 15 Ou seja, os blogs estão criando um overflow de informações, justamente por trabalhar com a Web de uma maneira diferenciada e coletiva: Discutindo informações através de webrings e comunidades virtuais. Com tamanho volume de novos nós e informações, novos textos e links, os sistemas de busca acabam por se “atrapalharem” e indicar, como primeira informação, para qualquer busca, resultados encontrados em blogs. Os blogs trazem a construção de uma rede de relações, construções e significados. O leitor de um texto, por exemplo, é convidado a verificar a sua fonte (através de um link), observa a discussão em torno do assunto (através dos comentários), é convidado a ler outros textos que tratam do mesmo assunto em outros 13 O conceito de comunidade virtual aqui utilizado já foi discutido em trabalhos anteriores, vide Recueroa, 2001, Recuerob 2001 e Recuero, 2002. 14 “Search Results Clogged by Blogs”: http://www.wired.com/news/business/0,1367,58838,00.html 15 Tradução dos autores: Os atributos dos blogueiros estão situados proeminentemente na freqüência com que eles publicam material novo e no fato de que outros sites, com freqüência, linkam para seus blogs. Estes são dois fatores que a maioria dos sistemas de busca levam em conta quando determinam rankings. http://www.ufrgs.br/limc 6/13 blogs (através do trackback) e pode, inclusive, fazer suas próprias relações através de uma participação ativa como comentarista ou como blogueiro, em seu próprio blog. “Individual readers may offer alternate readings of linked articles, supplemental material, or additional views of the same topic (Blood, 2002, p.17).” 16 O leitor pode, deste modo, interferir no texto do blogueiro, completando-o ou construindo-o. Essa rede de relações que permeia a rede dos blogs poderia representar as associações que todos os blogueiros e internautas realizaram ao ler o mesmo texto, apresentando suas próprias contribuições, como notas escritas em um livro. Essas notas, representadas pelas opiniões e comentários das pessoas formam intrincadas trilhas hipertextuais dentro da própria Rede, que são constantemente modificadas e trabalhadas pelos autores que lerão o texto em seguida. Cada internauta pode, portanto, observar as associações dos outros leitores e colocar também as suas. Trata-se, deste modo, de uma construção coletiva. De acordo com Landow (2003, online), a intertextualidade é uma característica fundamental do hipertexto. Ele explica que o hipertexto oferece ao leitor e ao escritor o mesmo ambiente, permite que alguém tome notas e escreva contra ou a favor de outros textos. Entretanto, não permite que um texto já publicado seja modificado por terceiros. Os blogs não são, portanto, sempre uma forma de construção coletiva onde todos possuem poder. Muitas vezes, trata-se de um texto escrito coletivamente, mas de uma rede de significações coletiva agregada a um texto individual. Em alguns blogs, no entanto, a construção coletiva é possível. Apesar de, na maioria dos vezes, o blog ser uma construção de um único indivíduo que tem o privilégio de modificar os textos dos posts, existem também os weblogs coletivos, onde todos os autores podem, se desejar, mudar o texto publicado. Neste caso, é um texto escrito, efetivamente, por vários autores, todos com as mesmas ferramentas. Quaisquer dos autores tem possibilidade de modificar o texto publicado por outro e mesmo complementá-lo através de observações no próprio corpo do texto. Muitos desses weblogs coletivos são, também, virtual settlements de comunidades virtuais. É o caso do Blogueiros_Pel 17 , um weblog escrito coletivamente por muitos blogueiros da cidade de Pelotas. O blog funciona como um fórum coletivo, trazendo informações e permitindo que todos os autores marquem eventos, discutam informações e deixem recados uns para os outros. Em muitos momentos, além de interagir no corpo do texto, os blogueiros agem, também, através da ferramenta de comentários. De um modo geral, o blog serve para que os indivíduos simplesmente deixem recados e apanhem respostas. O Stand Away18 é outro weblog coletivo. Desta vez, realizado por uma comunidade de fãs da banda brasileira de heavy metal Angra. O blog tem por objetivo informar os fãs e trazer discussões sobre a banda. É realizado por um grupo de pessoas que se conheceu no fórum da banda, no site oficial. 16 Tradução dos autores: Leitores individuais podem oferecer leituras alternativas dos artigos linkados, material suplementar ou visões adicionais do mesmo tópico. 17 http://www.blogueirospel.tk/ 18 http://standaway.weblogger.terra.com.br/ http://www.ufrgs.br/limc 7/13 2. Wiki e a construção cooperada de uma enciclopédia online Tendo-se apresentado os blogs em sua capacidade de mediar produções textuais coletivas e de contribuir para a formação e manutenção de comunidades virtuais 19 , apresenta-se agora uma modalidade de escrita hipertextual cooperada na Web pouco discutida até o momento: o sistema Wiki20 . Através dessa ferramenta um internauta pode alterar qualquer conteúdo apresentado em um site com tal recurso, através do próprio browser utilizado para navegação. Ou seja, logo após editar um texto disponível e clicar no botão de salvamento, a página é atualizada automaticamente no site, sem que o autor da versão anterior (ou qualquer outra pessoa) precise aprovar a modificação. Nesse sentido, ninguém possui a posse definitiva sobre texto nenhum. Ou melhor, os textos são de todos, são da comunidade. A possibilidade de livre alteração fica marcada pelo link “edit this page” ao final de toda página Wiki. Assim que ele seja clicado, uma nova página traz o texto daquela anterior na íntegra, dentro de um formulário que permite a inclusão, revisão e mesmo eliminação de textos. Para tanto, o interagente não precisa conhecer a linguagem HTML, podendo digitar livremente como estivesse usando um simples editor de texto 21 . Através da distribuição do código aberto Wiki22 , comunidades de discussão ganharam um novo suporte tecnológico para a construção cooperada do conhecimento. E é justamente com esse objetivo que em janeiro de 2001 Larry Sanger 23 e Jimmy Wales lançam a Wikipédia (http://www.wikipedia.org), que se tornaria o maior projeto Wiki até a presente data 24 . Esta enciclopédia online inova 19 Na verdade, trata-se de um perfil pouco trabalhado, pois o foco comum em trabalhos sobre blogs tem sido sobre seu uso como diário pessoal. 20 O termo Wiki foi cunhado por Ward Cunningham (originalmente como WikiWikiWeb), criador do sistema lançado em 1995, e significa “rápido” no Havaí (wiki wiki). Esse programador desenvolveu um script que funciona no servidor, com a finalidade inicial de auxiliar na condução de grandes projetos de informática. Uma aplicação dessa tecnologia veio permitir, por exemplo, que a documentação de projetos (tanto a descrição de especificações técnicas quanto o manual de instruções) pudesse ser atualizada constantemente por todos membros da equipe. Cada alteração é salva no sistema e todas modificações podem ser revisadas retrospectivamente. Cunningham viria, mais tarde, abrir um Wiki público (http://www.c2.com/cgi/wiki) para a discussão de questões de engenharia e metodologia de software. 21 De qualquer forma, o sistema Wiki incorpora algumas codificações mais simples para a geração, por exemplo, de itálico (duas aspas simples ao redor do texto em questão), negrito (três aspas simples) e links (utilizando-se colchetes duplos). Assim que um link seja criado, uma nova página é gerada automaticamente tendo a mesma palavra do link como título (implementações Wikis tradicionais preferem a seguinte notação para links e títulos de páginas: PalavrasEscritasJuntas). Os sistemas Wiki normalmente trazem uma página chamada de sandbox (caixa de areia) para que novos colaboradores possam aprender e praticar essa simples codificação. Veja um exemplo em http://www.c2.com/cgi/wiki?WikiWikiSandbox . 22 Uma versão do sistema – UseModWiki – pode ser copiada a partir do seguinte endereço: http://www.usemod.com 23 Antes disso, Sanger já trabalhava no projeto Nupedia (http://www.nupedia.com/), criado por Wales – uma enciclopéida online, escrita por especialistas, que estava demorando para alcançar seus objetivos. 24 Em junho de 2003 (quando foi escrito este trabalho), a enciclopédia online já continha mais de 130 mil artigos (como são chamados os verbetes) em inglês, e acima de 75 mil em outras línguas. Disponível em diversos idiomas, como o catalão, francês, alemão, polonês e mesmo latim e esperanto, a Wikipédia possui também uma versão em português (http://pt.wikipedia.com/wiki.cgi?HomePage). http://www.ufrgs.br/limc 8/13 justamente por ser redigida em colaboração não por um grupo de especialistas, mas por qualquer internauta disposto a participar da construção do projeto 25 . O objetivo do projeto é produzir uma enciclopédia que reúna o conhecimento humano em profundidade e abrangência. Pode-se encontrar raízes do ideal de coletar e organizar o conhecimento disponível na construção da biblioteca de Alexandria e no trabalho dos enciclopedistas 26 do século XVIII. Com a invenção da imprensa, as enciclopédias ganharam a possibilidade de melhor distribuição. E, com a ampliação de títulos publicados, passaram a ter uma função cada vez mais necessária: “a de guiar os leitores através da sempre crescente floresta – para não dizer selva – do conhecimento impresso” (Burke, 2003, p. 103). A partir do século XVII, as enciclopédias ganham uma nova forma de organização que facilitaria a consulta e a produção de índices remissivos: a ordem alfabética. A Wikipédia, por outro lado, enquanto uma enciclopédia digital, tem sua estrutura disposta em rede, em um mesmo “plano”. Ou seja, não existe uma hierarquia que organiza os verbetes e a própria consulta. A recuperação de informações nessa estrutura sem um ordenamento único (como a seqüência alfabética) se dá a partir de um mecanismo automatizado de busca e o entrecruzamento de informações se “amarra” através de links. As âncoras internas à Wikipédia conduzem o visitante a informações paralelas, e os links externos o levam a outos sites com mais informações (e mesmo dados primários) sobre o assunto pesquisado. Nesse sentido, a Wikipédia também apresenta “guias” para a investigação. Porém, ela vem oferecer uma possibilidade que não poderia ser imaginada nos compêndios impressos: a possibilidade de rearranjo e ampliação da indexação de informações, mesmo por aquele que consulta a enciclopédia. Diferentemente da possível anotação nas páginas de uma enciclopédia em papel, os textos e remissões acrescentados na Wikipédia ficam disponíveis aos próximos visitantes. Como não se trata de um conjunto de volumes impressos, a Wikipédia – que pode ser acessada de qualquer computador conectado à Rede – não precisa ser armazenada por cada pessoa. Tendo em vista sua estrutura digital, sua extensão tampouco é limitada27 . Ou seja, ela está aberta a constante ampliação e inclusão de novos artigos a qualquer momento e por quem quer que seja. Se o impresso demanda uma versão final a ser produzida em escala, e cada atualização exige a compra de nova edição para substituição da anterior 28 , a Wikipédia não tem versão final, nem edição obsoleta (mesmo porque a cada momento ela pode ser atualizada). E, em virtude de sua abertura à intervenção, os internautas não podem ser chamados de meros usuários ou leitores, à medida que podem se tornar co-autores quando quiserem. A autoria não fica aqui relegada à mera opção entre caminhos potenciais 25 Enquanto as primeiras enciclopédias da história eram freqüentemente escritas por professores (Burke, 2003), a Wikipédia não exige nenhum pré-requisito de seus colaboradores, não importando, por exemplo, que ainda sejam estudantes. 26 Em tempo: o termo grego encyclopaedia pode ser traduzido por "círculo do aprendizado"; a partir disso, certos compêndios (antes mesmo da Encyclopaedia coordenada por Diderot) passaram a ser assim chamados por organizarem-se da mesma forma que currículos educacionais. 27 Na verdade, os limites físicos aqui não se devem ao papel, mas sim ao espaço em disco nos servidores. Porém, garantidas as condições tecnológicas, a Wikipédia pode continuar sendo ampliada de forma “transparente” (segundo o jargão da informática) aos contribuintes. 28 Que fica obsoleta e precisa dar lugar na estante à nova versão. http://www.ufrgs.br/limc 9/13 abertos por um webmaster, que ocuparia uma posição hieraquicamente superior (mantendo para si a posse pelo produto digital e o privilégio de alterar o hipertexto e seu conteúdo escrito). Ou seja, não se trata apenas de leitura ativa e criativa29 , mas também de legítima redação. É preciso também notar que cada intervenção altera não apenas um verbete específico, mas também a própria Wikipédia enquanto todo editorial. Cada inclusão ou eliminação de link modifica a rede hipertextual. E é justamente nesse sentido que se trata aqui não apenas da criação coletiva de um texto seqüencial, mas da produção de um hipertexto cooperativo. Na verdade, a idéia de uma enciclopédia mundial permanente potencializada pela tecnologia 30 já havia sido imaginada por H.G. Wells, em um artigo (disponível online em http://sherlock.berkeley.edu/wells/world_brain.html) de 1937 na Encyclopédie Française (também publicado em sua coletânea World Brain, que trazia diversos textos sobre educação e recuperação de informações). Segundo Wells, as enciclopédias até então satisfaziam as necessidades de uma minoria culta – escrita por gentlemen para gentlemen (p. 1). Assim, advogava que um novo órgão deveria coletar, indexar, reunir e difundir o conhecimento mundial, “reunindo a mente do mundo”. A partir do ideal de colocar a “memória humana” à disposição de todo indivíduo, Wells conclui: As the core of such an institution would be a world of synthesis of bibliography and documentation with the indexed archives of the world. A great number of workers would be engaged perpetually in perfecting this index of human knowledge and keeping it up to date 31 (p.2). Mas enquanto o autor imaginava uma instituição centralizadora de tal empreitada, a Wikipédia abre-se para a construção cooperada e administrada pela comunidade (o que fundamenta a orientação dos projetos Wiki). Ou seja, qualquer pessoa pode alterar o conteúdo de qualquer artigo no site e redistribuir livremente os textos sem qualquer custo32 . A idéia de utilização de máquinas de automação para a compilação e recuperação de conhecimentos, também encontra antecedentes na descrição do Memex pelo visionário Vannevar Bush33 e na proposta de Ted Nelson do projeto Xanadu. Porém, enquanto esses autores imaginavam sistemas voltados para a organização individual de informações disponíveis (no caso de Bush, no intuito de 29 Normalmente, trabalhos sobre hipertexto ficam apenas nesta questão ao tratar de co-autoria. 30 O autor refere-se especificamente a uma nova tecnologia de seu tempo: a microfilmagem. 31 Tradução dos autores: Como centro dessa instituição estaria uma síntese mundial da bibliografia e documentação com os arquivos indexados do mundo. Um grande número de trabalhadores estariam perpetuamente engajados no aperfeiçoamento do conhecimento humano e mantendo-o atualizado. 32 A rigor, Richard Stallman – uma das figuras mais importantes no movimento de defesa do software livre – em 1999 propunha a criação de uma enciclopédia que tirasse proveito do perfil descentralizado da World Wide Web. Segundo ele, a própria Rede se converteria em uma enciclopédia universal, se não fosse o trabalho das corporações em controlar e cobrar por material didático. Segundo ele, um sequestro deliberado de informação educacional na Rede e um tratamento do conhecimento como commodity. Nesse sentido, Stallman vai defender a disponibilização do conhecimento humano de forma aberta. Para tanto, o autor propunha em seu texto a produção de uma enciclopédia livre, a ser escrita por voluntários. Dois anos depois, a Wikipédia passa a trilhar justamente aquele caminho proposto por Stallman. 33 O artigo “As we may think”, publicado originalmente em 1945, pode ser acessado em http://www.theatlantic.com/unbound/flashbks/computer/bushf.htm . http://www.ufrgs.br/limc 10/13 reproduzir o pensamento de um sujeito), o sistema Wiki veio permitir não apenas a reunião de dados, mas a própria geração de novos conhecimentos de forma compartilhada entre diferentes sujeitos, a qualquer tempo e de qualquer lugar. Ou seja, não se trata apenas de uma ferramenta de indexação e formatação, mas a criação de um espaço de debate e sintetização de textos. Ou seja, o papel do interagente não é apenas de um bibliotecário, mas verdadeiramente de um autor, no sentido mais estrito da palavra. Nesse sentido, a Wikipédia é mais do que a oferta de informações. É também um convite ao trabalho social de construção do conhecimento. Enquanto o uso de uma enciclopédia convencional supõe a consulta de informações que se tornam datadas no momento de sua publicação, e cujos volumes (com seus textos e interconexões codificados de forma perene) repousam imutáveis na estante, a Wikipédia abre suas páginas para a atualização constante e o debate contínuo sobre os escritos disponíveis. Não se quer supor, todavia, que por um toque de mágica qualquer visitante daquele site se transforme em um inventor. Porém, todo participante contribui também ao oferecer questões para discussão. E através dessas trocas coletivas, mesmo que em páginas “laterais” 34 , o texto dos verbetes vai sendo discutido e aperfeiçoado. Quando o texto for comprometido pela inclusão de informações duvidosas, novos debates e correções podem ser iniciadas. O processo coletivo de aperfeiçoamento de um artigo ou de um verbete polêmico, pois, acaba por manter registrado o resultado de um processo de discussão, que vai se atualizando nas páginas “abertas” do sistema Wiki. Nesse sentido, Aronsson (2003, p. 5) conclui que “the wiki accumulates the experience of the user community 35 ”. Em uma das diversas páginas de apresentação do projeto36 , defende-se que todo participante é tanto um escritor quanto um editor da enciclopédia. Ou seja, a comunidade que se organiza em torno da discussão de conhecimentos, através da interação mútua – e, portanto, de processos de negociação – constrói durante o processo uma certa visão grupal das informações em jogo. Não se quer inferir, todavia, que os participantes necessariamente alcancem consensos definitivos, ou que a discussão sempre conduza a um acordo homogeneizador. Procura-se aqui, isso sim, demonstrar como a Wikipédia transforma-se também em um virtual settlement, onde um interesse comum agrega diferentes pessoas (e, por conseguinte, diversos pontosde-vista) e o debate livre ganha um espaço para ocorrer – em contraste com as tradicionais páginas na Web que viabilizam apenas uma interação reativa (Primo, 1998). Nesse sentido, a assinatura deste ou daquele autor perde sentido, pois os textos são de autoria da comunidade de colaboradores envolvidos. Um temor que pode emergir diante de novos participantes é a possibilidade de outro voluntário alterar o texto que havia sido cuidadosamente escrito. É comum um autor entender que o texto que produziu era suficientemente adeqüado. Mas, como se viu, em um projeto coletivo um mesmo texto é de domínio de todos os participantes (atuais e futuros). Além de um produto, a Wikipédia é um 34 Esses espaços são as chamadas páginas /talk, disponíves para cada artigo e acessíveis pelo link “discuss this page” no rodapé de todas páginas. Lá a ferramenta Wiki é utilizada para formatar um verdadeiro fórum de discussão. Em muitas dessas páginas o debate é realmente intenso, na busca de uma forma de melhor apresentar o conteúdo em pauta e confirmar a veracidade das informações 34 . 35 Tradução dos autores: o wiki acumula a experiência da comunidade de usuários. 36 http://www.wikipedia.org/wiki/Wikipedia/Our_Replies_to_Our_Critics http://www.ufrgs.br/limc 11/13 processo37 . Ou seja, cada artigo pode ser articulado e rearticulado infinitamente. O compromisso, que se espera ser compartilhado, é de buscar oferecer a informação mais acurada possível. Nesse sentido, o trabalho grupal procura na cooperação e no cruzamento de dados o aperfeiçoamento progressivo dos verbetes. O processo coletivo pressupõe, pois, o espaço para o choque de idéias, para a sugestão de novos links, para a revisão conjunta de textos publicados. Ao debruçar-se sobre um mesmo conteúdo, o grupo precisa negociar diferenças, checar fontes e lapidar conceitos. A preocupação maior se desloca da proteção ao nome do autor para o cuidado com a informação, com o texto da comunidade. Como ilustração desse encaminhamento, veja-se a seguir o depoimento de um participante da Wikipédia 38 : I thought I understood Gödel's incompleteness theorem pretty well, and since the then existing article was short and incomplete, I decided to rewrite it. Since then, several people have chipped in, sometimes rewriting a paragraph, sometimes critizing an omission, sometimes deleting parts. I didn't agree with all changes, but with most of them. No material is ever lost since Wikipedia stores all previous versions of all articles. So I reverted a few changes back. Overall, the article is now much better than I could ever have written it alone39 . É bem verdade, não existe uma equipe contratada responsável por confirmar toda e qualquer informação lá disponibilizada. Por outro lado, incentiva-se a busca e citação de fontes 40 , a sugestão de links externos ao projeto e a própria revisão e discussão de textos alheios. Se a Wikipédia pode parecer vulnerável a equívocos 41 e mesmo a plágio de informações, e a vontade de capturar o conhecimento em um único compêndio possa ser discutível em seu idealismo, a motivação ao livre debate de idéias e a criação automática de espaços para tanto parecem dar fôlego ao projeto, servindo também como atrativo à chegada de mais voluntários. Considerações finais Mark Bernstein, um dos criadores da conhecida ferramenta Storyspace 42 (para a geração de ficcões hipertextuais), comenta 43 que muitas partes da Web se apresentam como produtos acabados, por não sofrerem alterações (como livros e posters). Enquanto isso, outras páginas na Rede são modificadas a todo momento, como sites de notícias, de informações mercadológicas ou esportivas, etc; weblogs, 37 Conforme advoga o artigo encontrado em http://www.wikipedia.org/wiki/Wikipedia/Our_Replies_to_Our_Critics . 38 http://www.wikipedia.org/wiki/Wikipedia/Our_Replies_to_Our_Critics . 39 Tradução dos autores: Eu pensei que compreendia bem o teorema da incompletude de Gödel, e como o artigo existente era curto e incompleto, eu decidi reescrevê-lo. Desde então, muitas pessoas fizeram contribuições, às vezes reescrevendo um parágrafo, algumas vezes criticando uma omissão, outras vezes deletando partes. Eu não concordei com todas as modificações, mas com a maioria delas sim. Nenhum material se perde para sempre, pois a Wikipédia grava todas as versões anteriores de todos os artigos. Então eu reverti algumas alterações. De maneira geral, o artigo está agora muito melhor do que eu poderia ter escrito sozinho. 40 http://www.wikipedia.org/wiki/Wikipedia:Cite_your_sources 41 Como a Wikipédia é um projeto em andamento, é possível que um internauta acabe cosultando uma informação errônea, que viria ser corrigida apenas após sua visita. 42 http://www.eastgate.com/Storyspace2.html 43 http://www.alistapart.com/stories/writeliving/ http://www.ufrgs.br/limc 12/13 wikis, páginas comunitárias, entre outras. Tais páginas são, para o autor, exemplares de uma “Web viva”. Ainda que o conceito não seja dos mais precisos (existe uma Web que seja morta? ), Bernstein chama a atenção para o fato que nem todo site apresenta uma atualização dinâmica. Na verdade, muitas páginas são de fato “esquecidas” na rede. Enquanto isso, os sistemas wiki e blogs vêm contribuir para a agilização de modificações em sites. Porém, não parece justo comparar wikis e blogs com sites corporativos, como sugere Bernstein. Enquanto estes útlimos, assim como os portais, predeterminam caminhos e conteúdos que não podem ser transformados pelos internautas (uma interação reativa), os wikis e blogs com comentários se abrem para a intervenção de qualquer interagente. Além disso, o dinamismo de blogs com comentários e wikis ganha movimento através do ativo diálogo entre os interagentes (uma interação mútua) 44 . Nos blogs e nas páginas wiki pode-se verificar a transformação de uma barreira básica de construção e produção de websites (ou nós na Web): o conhecimento da linguagem HTML. Com os blogs e com a tecnologia wiki essa barreira é superada, transformando qualquer internauta em um potencial autor na Web. Deste modo, presencia-se um novo rumo na estrutura hipertextual da Rede: a velocidade de expansão e complexificação da Web começa a aumentar significativamente. Ao mesmo tempo, percebe-se que a Web torna-se mais “popular”, saindo do caminho do controle exclusivo de produção de conteúdo das grandes corporações e portais, tornando-se um mar infinitamente maior de links, interações e construções coletivas. Quanto à produção coletiva na Web, os blogs com comentários e a Wikipédia, aqui discutidos, se mostram como exemplares daquilo que anteriormente já se havia conceituado como um hipertexto cooperativo (Primo, 2002). Ou seja, um mesmo texto multiseqüencial escrito por diversos colaboradores. A cada intervenção, o texto como um todo se altera. Após cada movimento, a produção se mostra diferente aos seus autores. Esse processo coletivo acaba por criar um espaço de debates, mantido através de negociações entre os participantes. Essa dinâmica ganha movimento a partir das modificações que constantemente alteram o escrito e, por que não, os próprios autores. Além disso, com a inclusão de novos links, outros caminhos se abrem, e a própria Web se expande. Enfim, os internautas deixam de ser simples "andarilhos" da Web, percorrendo trilhas abertas antes de sua chegada. Com os blogs e páginas wikis os internautas passam também a ser guias, podendo inclusive criar o próprio território e os caminhos que o entrecruzam. 44 Ou seja, blogs comentados e páginas wiki não podem tampouco ser comparados com outras páginas ditas “dinâmicas”, assim chamadas por apresentarem atualizações geradas automaticamente por um programa que coleta informações na Rede ou em um banco de dados. http://www.ufrgs.br/limc 13/13 Referências Bibliográficas 1. ARONSSON, L. Operation of a Large Scale, General Purpose Wiki Website. 6th International ICCC/IFIP Conference on Electronic Publishing. Karlovy Vary, República Tcheca. 6-8 nov. 2002. 2. BLOOD, Rebecca. The weblog handbook. Cambridge, MA: Perseus Publishing, 2002a. 3. BLOOD, Rebecca. We’ve got blog introduction. EDITORS of Perseus Publishing. In We’ve got blog. Cambridge, MA: Perseus Publishing, 2002b. 4. BURKE, P. Uma história social do conhecimento: de Gutemberg a Diderot. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2003 5. JONES, Quentin. Virtual-Communities, Virtual Settlements & Cyber-Archaelogy – A Theoretical Outline. In Journal of Computer Mediated Communication vol. 3 issue 3. December, 1997. Online em (01/10/1998) 6. LANDOW, G. P. Hypertext 2.0: The convergence of contemporary critical theory and technology. Baltimore: Johns Hopkins University. 1997. 7. LEMOS, A. A Arte da Vida. Webcams e Diários Pessoais na Internet. Revista Comunicação e Artes: a cultura das redes, p.305 - 319. 2001. 8. PRIMO, A. A emergência das comunidades virtuais. Intercom 1997 - XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Santos, 1997. 9. PRIMO, A. Interação Mútua e Interação Reativa: uma proposta de estudo. Intercom 1998 - XXI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. Rio de Janeiro, 1998. 10. RECUERO, Raquel. Comunidades Virtuais no IRC: o caso do #Pelotas. Um estudo sobre a Comunicação Mediada por Computador e a estruturação de comunidades virtuais. Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de mestre em Comunicação e Informação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (janeiro de 2002) Online em (13/06/2003) 11. RECUERO, Raquel. Comunidades Virtuais: Uma abordagem Teórica. Ecos Revista. Pelotas/RS: , v.5, n.2, p.109 - 126, 2001. Online em (13/06/2003) 12. RECUERO, Raquel. Weblogs Webrings e Comunidades Virtuais. Trabalho apresentado no GT de Comunicação e Cultura do VII Seminário Internacional de Comunicação, em Setembro de 2002. Online em (13/06/2003)