Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

60

VERBETE DIGITAL:

ANÁLISE DE GÊNERO

NA WIKIPEDIA

Digital entry: genre analysis

in Wikipedia

Vanessa Wendhausen Lima1

Doutoranda/UNISUL

Resumo: O objetivo desse artigo é relatar uma análise do verbete da Wikipédia como gênero

digital. Este trabalho tem como fundamentação teórica a teoria de gênero como ação social,

desenvolvida por Carolyn Miller (1994). A análise da organização retórica do corpus demonstra

que esse gênero é uma variação do gênero verbete encontrado em enciclopédias tradicionais,

com variações também em seus aspectos textuais.

Palavras-Chave: gênero; gênero digital; verbete da Wikipédia; ação social.

Abstract: The aim of this paper is to report an analysis of the entry of Wikipedia as a digital genre. This

theoretical work is based on the theory of genre as social action, developed by Carolyn Miller (1994). The analysis

of the rhetorical organization of the corpus shows that this genre is a variation of the genre entry which is found in

traditional encyclopedias, involving also variations in the textual aspects.

Key-Words: genre; digital genre, Wikipedia entry; social action.

1 Doutoranda e Mestre em Ciências da Linguagem/UNISUL. Email: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

61

Introdução

O advento da cultura digital foi responsável por uma série de modificações sociais e

culturais, tais como: a adequação dos estilos de vida e de trabalho à tecnologia da informação, às

visões de mundo que puderam ser compartilhadas mais rapidamente e a revitalização da

comunicação humana, com a abertura de novos canais de conversação. Diante desse cenário,

pode-se atribuir à internet um caráter provocador dessa evolução na transmissão de informação.

Se à internet cabe a responsabilidade pela nova fase da cibernética, à interação mediada por

computador cabe o papel de catalisador dessa modificação de processos sócio-culturais.

De acordo com Marcuschi (2004), a internet deve ser caracterizada como um

protótipo de novos modelos de comunicação que permitem a reunião de várias formas de

expressão num só meio, como: o texto, o som, a imagem. As atividades comunicativas diárias

podem ser ordenadas e estabilizadas com a contribuição dos gêneros e assim também acontece

com a comunicação mediada por computador. Os gêneros são “entidades sócio-discursivas e formas de

ação social incontornáveis em qualquer situação comunicativa” (MARCUSCHI, 2005, p. 19). Do ponto de

vista tecnológico, as modificações de cunho digital atingem também os gêneros, principalmente

se estes forem entendidos como fenômenos históricos, profundamente vinculados à vida

cultural e social.

Altamente vinculado ao que se refere à vida cultural e social aparecem os gêneros

digitais. Estes têm seus antecessores marcados na existência de outros gêneros bem conhecidos

socialmente, como o e-mail tem origem na carta, os weblogs nos diários pessoais, os jornais on-line

nos impressos. Cada novo gênero de ambiente digital tem suas origens marcadas, mas cada

gênero tem suas características, sua identidade própria. Aspecto central nos gêneros digitais, o

uso diferenciado e plástico da linguagem mostra a redefinição e transposição dos gêneros.

Um desses gêneros que sofreu uma transposição de suporte foi o verbete. Antes

encontrados somente nas enciclopédias e dicionários, hoje são vistos também na web. Os

verbetes da Wikipédia2 têm características que são comuns aos verbetes tradicionais e outras,

totalmente novas, que são fruto de um ambiente diferente. A forma textual dos verbetes da

Wikipédia surgiu da necessidade coletiva de participação ativa na web, assim como seu modo de

2 A Wikipédia é uma enciclopédia digital construída online por seus produtores-leitores, a partir de um trabalho totalmente voluntário.

Ela é denominada enciclopédia livre pelo fato de que qualquer artigo do ambiente pode ser copiado e modificado, desde que

preservados os direitos de cópia e modificação.

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

62

produção textual – socialmente compartilhado e repetido. A enciclopédia livre é a integração da

comunicação e da interação mediada por computador com a tradição de divulgar e dividir o

conhecimento, como já acontecia em enciclopédias impressas.

Considerando tais modificações nos processos e nos consequentes resultados da

cultura digital, o objetivo deste trabalho é relatar uma análise textual do gênero digital verbete da

Wikipédia. Para embasar este trabalho utiliza-se da teoria de gênero como ação social de Carolyn

Miller (1994) e segue a sugestão de Paré e Smart (1994) sobre os procedimentos metodológicos

adequados a uma análise de gênero como ação social. Assim, este artigo é um relato da análise

textual do gênero verbete da Wikipédia, especificamente.

1. Gênero como ação social

Os gêneros podem ser entendidos como uma maneira de ser inteligível, uns aos

outros, um formador de nossas intenções ou de nossas ações. Eles podem assumir o papel de

mediador nos processos sociais ou, ainda, de catalisador de ações sociais em constante

transformação. O gênero, assim como a escrita, assume um papel mediador em sociedade. Em

torno da linguagem, através de textos escritos, a vida em sociedade se concretiza e, por isso, o

domínio sobre os gêneros, conforme propõe Bakhtin (1979/2003), torna-se efetivamente

necessário como condição para a convivência em sociedade. Carolyn Miller (1994) propõe uma

noção de gênero como ação social, ou seja, defende que o gênero deve ser entendido como uma

ação retórica recorrente e dinâmica, uma categoria decorrente do comportamento comunicativo

em ambientes específicos, o que significa que uma definição de gênero deve estar centrada não

na substância ou na forma do discurso, mas na ação usada para realizá-lo. Miller (1994)

argumenta que uma compreensão social dos gêneros pode explicar como o indivíduo encontra,

interpreta, reage e cria determinados textos. Para a autora, uma noção de gênero como ação

social responde a situações definidas socialmente (CARVALHO, 2005). Cabe lembrar que as

noções de recorrência e ação retórica são centrais nesta teoria.

Conforme Miller (1994, p.36), o gênero como ação retórica está baseado “nas práticas

retóricas e nas convenções do discurso estabelecidas pela sociedade como forma de ação conjunta”. Com base

nessas convenções sociais, a autora estabelece algumas características do gênero: 1) refere-se a

uma categoria do discurso convencionada em ações retóricas tipificadas, que adquire significado

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

63

a partir da situação e do contexto em que está inserida; 2) como ação significativa é interpretável

por meio das regras que o regulam; 3) tem uma forma particular que se caracteriza pela fusão

entre forma e substância; 4) através do uso recorrente da linguagem constitui a vida cultural do

indivíduo; 5) o gênero é um recurso retórico que atua como mediador entre as intenções

particulares e a exigência social, motiva a conexão entre o privado e o público, o singular com o

recorrente.

A conexão entre as noções de gênero e de ação social levaram Miller (1994) a

dialogar com as ciências sociais, especialmente com a teoria da estruturação de Anthony Giddens

(2003), para edificar as bases de sua teoria. A teoria da estruturação descreve como os sistemas

sociais são estruturados através da relação espaço-tempo. As noções de sistema e estrutura são

centrais na teoria de Giddens. Para o autor, a estrutura é formada por padrões recorrentes de

ação e interação.

Giddens (2003) afirma que o foco de análise deve recair sobre as estruturas, isto é,

sobre as práticas sociais, pois através delas pode-se explicar de que forma ocorre a interação

entre os membros de um grupo. O autor acredita que as atividades sociais humanas não “são

criadas por atores sociais, mas continuamente recriadas por eles através dos próprios meios pelos quais eles se

expressam como atores” (GIDDENS, 2003, p. 2). Por isso a interação social e, por consequência, as

práticas sociais são duas dimensões que devem ser estudadas e entendidas como base da

estruturação da sociedade.

Miller (1994) faz uma analogia entre gênero e ação social e os associa à ideia de

reciprocidade entre interação social e estruturação, a que ela chama de “mecanismo recíproco de

estruturação e interação”. A autora explica: “meu ponto de vista é que este direcionamento fornece um

mecanismo específico pelo qual a ação comunicativa individual interage com o sistema social” (MILLER, 1994,

p. 72). Com base nessa interação, a autora defende que o indivíduo deve reproduzir noções

padronizadas por outros, sejam estes sociais ou institucionais, e que a sociedade deve fornecer as

bases para essa reprodução, interagindo e estruturando-se reciprocamente. É mister lembrar que,

ao enfatizar a reprodução de noções padronizadas pela sociedade, Miller (1994) chega a uma das

bases de seu pensamento: a recorrência. Para a autora, o gênero é um estruturador em potencial

da ação social, pois é o mediador entre o particular e o público, entre o individual e o social.

Seguindo esse raciocínio de estruturação social, a autora define uma noção seminal

para sua teoria – comunidade retórica –, que é defensável através do pensamento de Giddens

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

64

(2003). A pesquisadora entende que uma comunidade, concretizada pela linguagem, caracterizase

como retórica: “uma comunidade retórica é invocada, representada, pressuposta ou desenvolvida no discurso

retórico” (MILLER, 1994, p. 73). De acordo com Giddens (2003), uma comunidade constitui-se

através de uma constante, intensa e dinâmica interação social entre os indivíduos efetivando-se

como tal através das práticas sociais. Segundo Carvalho (2005), diferentemente de comunidades

delimitadas geograficamente, cujos limites são impostos de fora para dentro, as comunidades

retóricas definem-se pela acomodação das semelhanças e diferenças por demandar interações

reais entre seus membros. Ainda segundo a autora, os grupos se constituem e se mantêm por

partilharem valores sociais, ideológicos e culturais; e, para entendê-los, é preciso conhecer e

compreender as regras que os mantêm. Este é um dos pontos centrais no método para esta

pesquisa que se propõe a conhecer as regras que mantêm um grupo coeso.

2. Gênero em ambiente digital

A transposição dos gêneros de contexto oral ou impresso para o contexto digital e a

variação dos suportes desses gêneros têm provocado polêmicas entre os pesquisadores da

linguística, da informação ou da comunicação quanto à natureza e proporção de seu impacto na

linguagem e na sociedade em geral. É compreensível que a internet tenha causado dúvidas entre

estudiosos de diversas áreas, pois, segundo Lévy (2002), o surgimento da internet traz à tona a

possibilidade de uma cultura digital, tão impactante quanto a emergência da cultura escrita após

seu advento. Expressões como site, e-mail, weblog, chat são comuns na atual sociedade da

informação (MARCUSCHI, 2004) e o indivíduo acostumou-se a ouvi-las e a utilizá-las de forma

rotineira. No entanto, o autor Marcuschi ainda propõe que a originalidade desses gêneros seja

analisada em relação aos gêneros existentes e levanta a discussão sobre as influências da internet

sobre os gêneros e o fato de que essa mídia possa transmutar ou mesclar gêneros existentes ou,

ainda, desenvolver alguns gêneros realmente novos. No entanto, quão novo pode ser um gênero

em um ambiente digital?

Se tomarmos o gênero como texto situado histórica e socialmente, culturalmente

sensível, recorrente, “relativamente estável” do ponto de vista estilístico e

composicional, segundo a visão bakhtiniana (Bakhtin, 1979), servindo como

instrumento comunicativo com propósitos específicos (Swales, 1990) e como forma de

ação social (Miller, 1984), é fácil perceber que um novo meio tecnológico, na medida

em que interfere nessas condições, deve também interferir na natureza do gênero

produzido (MARCUSCHI, 2004, p. 17).

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

65

Os gêneros surgem de acordo com as necessidades e atividades culturais, assim

como na relação com as inovações tecnológicas e, nos últimos tempos, foram essas tecnologias,

especialmente as comunicacionais, as corresponsáveis pelo surgimento de novos gêneros. É

importante salientar que não são as novas tecnologias que originam os gêneros, mas a

intensidade do uso dessas tecnologias, bem como a interferência delas nas práticas sociais. Nas

palavras de Marcuschi, 2002, p. 20:

Os grandes suportes tecnológicos da comunicação tais como o rádio, a televisão, o

jornal, a revista, a internet, por terem uma presença marcante e grande centralidade nas

atividades comunicativas da realidade social que ajudam a criar, vão, por sua vez,

propiciando e abrigando gêneros novos bastante característicos.

Bakhtin (1979/2003) falava na transmutação dos gêneros quando definiu que os

gêneros primários (diálogo, carta, lista de compras), ao serem assimilados pelos gêneros

secundários, não deixam de existir, mas, apenas, ajudam na formação de novos gêneros. Assim,

o e-mail, com antecessores como a carta ou o bilhete, não teve suas características extirpadas, mas

renovadas. O suporte deixa de ser o papel, o impresso, para se tornar eletrônico, digital.

Segundo Carvalho (2005), como ação social, as mensagens que os indivíduos

transmitem, tais como um bilhete, um e-mail, um telefonema são construídos baseados na

experiência sócio-retórica do indivíduo, através de propósitos comunicativos. Para estabelecer

esses propósitos, o indivíduo age com base em situações similares anteriores. “As práticas de

produção e/ou recepção desses textos também apresentam regularidades passíveis de ser identificadas”

(CARVALHO, 2005, p. 136). Bazerman (2006) argumenta que discursos tipificados são

fundamentais na formação individual de noções, tais como: o quê, quando e como fazer. Para o

autor, o gênero parece com um constituidor da formação, manutenção e realização social,

cultural e psicológica da personalidade e do conhecimento. Dessa forma, o indivíduo permanece

agindo de forma similar, com base em situações similares anteriores (cartas, bilhetes ou

telegramas) para transmitir suas mensagens também similares, mas com uma diferença:

atualmente as mensagens podem ser eletrônicas.

Outros gêneros textuais foram transpostos para o contexto digital e assim passaram

a ter suportes diferentes dos tradicionalmente conhecidos. O ambiente digital abriu espaço para

gêneros textuais antigos, como o jornal, a revista, o diário pessoal, o álbum de fotos, os

programas de TV ou de rádio. Em alguns desses casos, o gênero modifica-se completamente; em

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

66

outros, o suporte diferencia-se do habitual, mas a mensagem continua com o mesmo formato,

assumindo apenas uma nova forma de chegar ao seu destinatário. Pode-se afirmar que, um

exemplo de gênero que sofreu modificações no que diz respeito à forma e à substância, é a

enciclopédia e seus verbetes. O verbete de uma enciclopédia digital tem características diferentes

do verbete de uma obra tradicional, mas sua denominação permanece a mesma.

2.2 O gênero digital verbete da Wikipédia

Verbetes são conhecidos por explicarem o sentido das palavras através de relações

entre signos linguísticos. A palavra “verbete” em língua portuguesa data de 1947, e Dionísio

(2005) utiliza a definição de Houaiss em seu trabalho:

verbete/ê/s.m. (1881 cf. CA) 1. nota ou comentário que foi registrado, anotado;

apontamento, nota, anotação, registro 2. (1881) pequeno papel em que se escreve um

apontamento 3. ficha arquivo (p. ex., em biblioteca) 4. (a1947) em lexicografia, os

conjuntos das acepções, exemplos e outras informações pertinentes contido numa

entrada de dicionário, enciclopédia, glossário, etc. ETIM verbo + -ete; ver verb(i/o)-

HOM verbete (fl. Verbetar) (HOUAISS apud DIONISIO, 2005, p. 125).

Os verbetes podem ser encontrados em obras como dicionários, glossários ou

enciclopédias, estas denominadas de colônias discursivas ou texto colônia. Hoey (apud

DIONÍSIO, 2005) define o texto colônia como um discurso composto de significados

independentes entre si ou das sentenças em que estão inseridos, ou seja, os verbetes são

independentes um do outro e cada componente do verbete também. É importante lembrar que

textos colônia incentivam o leitor a uma forma muito particular de leitura, um processo

denominado scanning, ou seja, leitura dirigida que, segundo Dionísio, é uma estratégia para a

identificação de informações específicas no texto. Para a autora, o texto colônia tem

características que ajudam a defini-lo e a entendê-lo:

a) o significado não deriva de uma seqüência; b) as unidades adjacentes não formam

uma prosa contínua; c) não há um frame contextual; d) não há um autor individual

identificável; e) um componente pode ser utilizado sem referência aos demais; f) os

componentes podem ser reimpressos ou reutilizados em trabalhos subseqüentes; g) os

componentes podem ser acrescentados, removidos ou alterados; h) muitos

componentes podem servir a mesma função; i) há uma seqüência alfabética, numérica

ou temporal (DIONISIO, 2005, p. 126).

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

67

Ainda conforme Dionísio (2005), enciclopédias e verbetes tradicionais devem ser

caracterizados de acordo com a definição de colônias discursivas e texto colônia. Os verbetes da

enciclopédia digital não possuem uma sequência, assim como as unidades adjacentes não

formam uma prosa contínua, ou seja, se todos os verbetes forem considerados juntos, eles não

têm continuidade ou sequencialidade. Cabe deixar claro que a caracterização da autora utilizada

neste trabalho não tem por objetivo comparar os verbetes entre si, mas sim, a obra como um

todo. O texto colônia, neste caso a Wikipédia, é formado por diversos verbetes e estes não têm

continuidade entre si. Como numa enciclopédia tradicional, não há um autor identificável, mas

autores que trabalharam nos verbetes em conjunto, visto que os textos não são assinados.

Componentes de um texto colônia, os verbetes da Wikipédia podem ser utilizados em isolado,

assim como podem ser acrescentados, removidos ou alterados. Aliás, os verbetes da Wikipédia

estão em constante movimento, pois os colaboradores realizam frequentes alterações nos textos.

Uma diferença entre a Wikipédia e as colônias discursivas tradicionais é a sequência alfabética,

numérica ou temporal. Na enciclopédia digital, o acesso aos verbetes se dá por meio de busca

por palavras-chave, assim a sequência inexiste aos olhos do leitor, pois o sistema utiliza a

estratégia de scanning no lugar do leitor.

Dionísio (2005) estabeleceu uma relação metafórica entre a noção de Hoey (2001)

sobre colônia discursiva e a noção de colmeia. “Os verbetes seriam, então, as abelhas moradoras da

colméia” (DIONISIO, 2005, p. 126). Os verbetes da Wikipédia são independentes uns dos outros

e podem ser utilizados como textos únicos, isolados, assim como os verbetes de um dicionário.

Os textos da Wikipédia não possuem uma forma única e podem ser construídos a qualquer

momento, com a possibilidade ou necessidade de acréscimo de partes explicativas. Assim como

as enciclopédias tradicionais, a Wikipédia é escrita de forma colaborativa, mas com a diferença

de que o texto escrito é publicado no exato momento em que o autor determina o fim de sua

participação. As revisões são também colaborativas e acontecem com o decorrer do tempo.

A Wikipédia tem certa similaridade com o texto colônia, porém seus verbetes têm

particularidades quando comparados aos verbetes de dicionários e enciclopédias tradicionais. Os

verbetes de enciclopédia tradicionais são estruturas estáticas, isto é, são escritos e revisados antes

de sua impressão e/ou publicação e não podem ser alterados até que uma nova edição seja

impressa. Na Wikipédia, os verbetes são dinâmicos, ou seja, tornam-se públicos ao final de sua

escritura, sem que necessite passar por revisão antes de chegar ao público, além de estarem

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

68

constantemente passíveis de revisão. Em relação a um verbete estático, o verbete da Wikipédia

também não possui autor individual identificável, mas possui a identificação de quem e quando

este fez as edições dos verbetes, diferentemente do verbete tradicional. Conforme caracterizado

por Dionísio (2005), os verbetes da Wikipédia não possuem uma sequência, porém são textos

explicativos, detalhados, contínuos.

O gênero verbete da Wikipédia possui regularidades de forma como a presença de

links3 no texto e a construção colaborativa destes. Os links vinculados aos textos transformam a

enciclopédia numa rede de informação interconectada, tendo seus textos ligados entre si,

característica essencial dos verbetes. Já a construção colaborativa é uma característica do sistema

wiki e permite que todo o projeto, e não apenas os textos, possam ser criados e editados por

participantes a qualquer momento da trajetória do verbete. No entanto, as contribuições são

guiadas por um livro de estilo, mantido pela enciclopédia, que serve como guia para os

participantes engajados na escritura dos verbetes e como referência para uniformizar os verbetes

da Wikipédia. Por ter uma essência colaborativa, o verbete da Wikipédia está imbuído de ação social

e o gênero pode ser visto como tal, como será explicado na seção seguinte.

3. Procedimentos metodológicos

Este estudo pode ser caracterizado como uma análise da organização textual do

gênero verbete da Wikipédia, tendo como corpus três desses verbetes: Radioamadorismo,

Centro de Mídia Independente e Aquecimento Global. Ao entender o gênero como ação social,

Miller (1994) não indica um procedimento metodológico específico, mas acredita que a análise

deve focar a ação utilizada para realizar o gênero.

Nesse caso, Paré e Smart (1994, p. 146) propõem: “o quê, além dos textos, são os

elementos constitutivos observáveis de um gênero?”. Sob o ponto de vista do gênero como ação social, os

autores afirmam que uma análise deve prever o exame das regularidades aparentes no texto, tais

como aquelas observáveis nos processos de produção dos textos. Dessa maneira, a análise da

organização retórica dos verbetes deve demonstrar a existência de regularidades composicionais

3 A palavra link (do inglês, hyperlink ou link, hiperligação ou ligação) entrou na língua portuguesa através das redes de computadores

(em especial a internet), para designar as ligações de um documento a outro. Fonte: http://pt.Wikipédia.org/hiperligaçao

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

69

em seus elementos característicos. Para isso, conforme sugerido pelos autores, o foco deste

trabalho é a análise.

A análise dos movimentos retóricos dos textos do corpus mostrou uma configuração

geral do padrão retórico dos verbetes. Os verbetes podem ser divididos em quatro movimentos

retóricos básicos: o primeiro movimento retórico destina-se à apresentação e contextualização

do tema e contém um índice que direciona o leitor às seções e subseções do texto. O segundo e

o terceiro movimentos destinam-se à descrição de dados históricos e ao desmembramento do

assunto tratado. O último movimento retórico tem o propósito de recomendar temas correlatos

ao tema tratado no verbete, incrementados com ligações a outros verbetes ou a outros sites.

Movimento retórico 1: apresentação e contextualização do tema

Subfunção 1: introduzindo brevemente o tema

Subfunção 2: indicando seções e subseções

Movimento retórico 2: descrição de dados históricos

Subfunção 3: descrevendo e explicitando dados históricos

Movimento retórico 3: desmembramento do tema

Subfunção 4: aprofundando e fornecendo informações sobre o tema

Movimento retórico 4: recomendação de temas correlatos

Subfunção 5: conectando o tema a outros verbetes

Subfunção 6: conectando o tema a outras páginas

Quadro 1 – Organização retórica dos verbetes da Wikipédia.

4. Análise

Para definir o verbete da Wikipédia como um gênero tomou-se por base a

caracterização de Miller (1994) sobre os gêneros, sob os seguintes aspectos: o gênero refere-se a

categorias do discurso que são convencionais por derivarem de ação retórica tipificada; é

interpretável por meio das regras que o regulam; é distinto em termos de forma, mas é uma

fusão entre forma e substância; constitui a cultura; é mediador entre o público e o privado. O

verbete da Wikipédia se enquadra nessa caracterização e, assim, como uma categoria do discurso

derivada de ação retórica tipificada, interpretável por meio das regras que o regulam, uma fusão

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

70

entre forma e substância, constituidor da cultura e mediador entre o individual e o social. O

verbete da Wikipédia é um resultado da ação social em que a enciclopédia livre está envolvida,

ou seja, através da ação coletiva de produção, edição e manutenção de verbetes, o gênero se

constitui em um novo espaço, uma nova comunidade.

Quanto à organização retórica dos verbetes, um detalhe fundamental e que está

presente em toda a estrutura da enciclopédia, é a presença de links no corpo do texto. Os links

têm três funções básicas: a de chamar a atenção do leitor, de facilitar a leitura e a pesquisa e de

formar uma rede entre os textos. Além disso, os verbetes são iniciados por um lead – movimento

retórico 1 – que fornece as informações introdutórias e contextualiza o tema. Esta parte do texto

também é composta por muitos links para que o leitor se localize dentro do texto e para que

tenha informações específicas sobre o assunto. Além disso, os links podem amenizar a leitura e a

navegação pela Wikipédia. Segundo Vieira (2007), a leitura de textos desse tipo, com vários links,

é a mais agradável aos olhos do usuário, evitando que ele desista da leitura. Logo abaixo do texto

introdutório, aparece um índice e cada título indicado serve como link para o respectivo texto.

Além dos links e do texto propriamente dito, os verbetes são formados por outros elementos

semióticos como tabelas, plantas arquitetônicas, gráficos e/ou imagens. Esses elementos são

todos legendados e, na maioria das vezes, em diversas cores4.

Os verbetes possuem uma forma padronizada em relação à colocação de títulos, ao

desenvolvimento dos parágrafos, à forma inicial de um verbete. Apesar de possuir a

característica de liberdade de ação, a Wikipédia possui normas que regem o andamento das

4 Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Radioamadorismo

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

71

publicações. Através de um guia de estilo, a Wikipédia mantém o padrão na organização retórica

dos verbetes, pois, através desse manual de redação, propõe a uniformização dos verbetes, em

termos de forma e estilo, chamado ‘Guia de Estilo’. Com base nestas recomendações, os textos

são escritos em estilo coloquial, tornando-se acessíveis a qualquer pesquisador. Uma das

recomendações do guia é manter o acesso de várias pessoas aos textos da Wikipédia, evitando a

utilização de termos especializados ou palavras rebuscadas. Por sua característica digital, os

verbetes preveem mobilidade e leitura rápida5, impedindo que os leitores desistam da pesquisa.

Há, também, orientação para que os textos sejam escritos com imparcialidade e neutralidade,

impedindo a manifestação de opiniões e ideias sobre qualquer dos temas. Nesse sentido, a

vigilância dos próprios colaboradores sobre temas que envolvem política, religião, raça, esportes

é intensificada para evitar o ataque a crenças alheias, o que tornaria a Wikipédia um fórum de

debates e discussões. Dessa forma, pode-se constatar a utilização das vozes ativa e passiva na

escrita dos verbetes: nos movimentos retóricos um e dois, a voz passiva é utilizada, pois são

movimentos que introduzem o leitor ao tema e a sua história. Já nos movimentos retóricos três e

quatro, a voz ativa é utilizada com frequência, pois nesses movimentos acontecem o

desmembramento do tema e a recomendação a temas correlatos. Como citado anteriormente, os

verbetes são escritos de maneira neutra e, por isso, não há referência ao escritor ou ao leitor

durante o corpo do texto, exceto pelo movimento quatro do verbete – recomendação a temas

correlatos – que, conforme sua organização refere-se diretamente ao leitor no modo infinitivo,

utilizando como título a expressão “ver também”.

Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/CMI

5 A leitura na web é diferente da leitura no papel. Naquela a ordem é aberta, simultânea e decidida pelo leitor, diferentemente da

leitura em suporte impresso, que é definida pelo autor do texto. O leitor assume posturas diferentes ao ler um texto na tela do

computador e essa postura é que determina a mobilidade necessária aos textos online (VIEIRA, 2007, p. 250).

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

72

As atividades que envolvem a Wikipédia não são totalmente novas, mas recriações

de atividades mais antigas, as enciclopédias tradicionais. Com o crescente acesso à internet, os

criadores do projeto reinventaram as antigas enciclopédias, trocando seu suporte e adaptando os

processos a um novo ambiente, o digital.

Considerações Finais

Após analisar a organização retórica do verbete da Wikipédia, é possível constatar

um tipo textual variante do gênero verbete encontrado em enciclopédias tradicionais, com

variações também em seus aspectos textuais. Entende-se, assim, que o verbete da Wikipédia é

um resultado da ação social que envolve a enciclopédia livre, ou seja, através da ação coletiva de

produção, edição e manutenção de verbetes, o gênero se constitui em um novo espaço, em uma

nova comunidade. Isso se tornou possível através da recorrência e da tipificação dos textos da

Wikipédia, que, assim, puderam assumir uma forma única e serem classificados como um

gênero. Dessa forma, este artigo atinge seu objetivo de analisar textualmente o verbete da

Wikipédia e o define como um gênero digital, resultante da ação social que envolve a

enciclopédia livre.

Referências

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003 [1979].

BAZERMAN, Charles. Gêneros textuais, tipificação e interação. Organizado por Angela

Paiva Dionísio e Judith Chambliss Hoffnagel; tradução e adaptação Judith Chambliss Hoffnagel;

revisão técnica Ana Regina Vieira. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2006a.

CARVALHO, Gisele de. Gênero como ação social em Miller e Bazerman: o conceito, uma

sugestão metodológica e um exemplo de aplicação. In: MEURER, José Luiz; BONINI, Adair;

MOTTA-ROTH, Désirée (orgs.). Gêneros: teorias, métodos e debates. São Paulo: Parábola

Editorial, 2005. p. 130-149.

DIONÍSIO, Ângela Paiva. Verbetes: um gênero além do dicionário. In: DIONÍSIO, Ângela

Paiva; MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros textuais e

ensino. 4. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. p. 125-137.

GIDDENS, Anthony. A constituição da sociedade. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

Revista L@el em (Dis-)curso – Volume 4 / 2011

http://revistas.pucsp.br/index.php/revlael

LIMA, V. W. Verbete digital: análise de gênero na Wikipedia. Revista L@el em

(Dis-)curso. Volume 4, 2011.

73

LÉVY, Pierre. Uma perspectiva vitalista sobre a cibercultura. In: LEMOS, André. Cibercultura,

tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Porto Alegre: Sulina, 2002. p. 13-16.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. A questão do suporte dos gêneros textuais. In: DLCV: língua,

lingüística e literatura, João Pessoa, v. 1, n. 1, p. 9-40, 2002.

______. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, Luiz

Antônio; XAVIER, Antônio Carlos dos Santos, (orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas

formas de construção de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004. p. 13-67

______. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, Ângela Paiva;

MACHADO, Anna Rachel; BEZERRA, Maria Auxiliadora (orgs.). Gêneros textuais e ensino.

4. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. p. 19-36.

MILLER, Carolyn. Genre as social action. In: FREEDMAN, Aviva; MEDWAY, Peter, (orgs.).

Genre and the new rhetoric. London: Taylor & Francis, 1994. p. 23-42.

PARÉ, Anthony; SMART, Graham. Observing genres in action: towards a research

methodology. In: FREEDMAN, Aviva; MEDWAY, Peter, (orgs.). Genre and the new

rhetoric. London: Taylor & Francis, 1994. p. 146-154.

VIEIRA, Iúta Lerche. Leitura na internet: mudanças no perfil do leitor e desafios escolares. In:

ARAÚJO, Julio César (org.). Internet e ensino: novos gêneros, outros desafios. Rio de Janeiro:

Lucerna, 2007.